sábado, 28 de março de 2015

[RESENHA] O Anatomista de Federico Andahazi



Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 162
Publicação: 2015

Estamos no século XVI em que a ciência em geral ainda tinha muitos mistérios a desvendar. Nesse período em que o renascentismo surgia no mundo, as mulheres em geral eram pouco valorizadas, não tendo voz nem vez. Há também uma forte influência da igreja por sobre os costumes sociais. Quase tudo era considerado diabólico e motivo para ser levado ao julgamento da Inquisição. Com medo de serem queimados em praça pública, muitos cientistas omitiram seus trabalhos que, muitas vezes, traziam grandes descobertas.

Em uma situação semelhante se encontraria Mateo Colombo, um professor de medicina que adora trabalhar na área de anatomia humana. Dentre as suas descobertas tem-se a circulação pulmonar e a lente (cristalino) do olho. Porém, ao se apaixonar por Mona Sofia, maior prostituta da época ele começaria a desvendar a sua maior descoberta e acabaria por escandalizar o clero paroquial da época. Colombo, tal qual o navegador, descreveria em sua obra mais conhecida, De Re Anatomia, o clitóris, região responsável pelo chamado Amor Veneris ou Amor de Vênus, fazendo com que as mulheres fiquem apaixonadas.

É quando começa a tentar publicar seus estudos que Mateo começa a sofrer uma perseguição da igreja para ser colocado na lista de obras que não podem ser lidas e ser queimado na fogueira da Santa Inquisição. Uma vez que o prazer à era algo que feria as sagradas escrituras, nosso protagonista terá que conseguir driblar essa situação, sem perder o seu encanto e estima por Sofia.

O Anatomista é um romance argentino publicado originalmente em 1996. O enredo traz uma forte crítica social às imposições religiosas da época e tem um viés feminista ao tratar do corpo como instrumento de prazer feminino. Em uma época em que o sexo era endemoniado e o prazer tido como pecado mortal, atribuir esses fatores ao corpo feminino era algo absolutamente impensável, talvez o maior dos sacrilégios.

A narrativa do autor é muito arrastada, o que faz com que o mote do livro, que achei genial, perca um pouco de sua atratividade. Os parágrafos são longos e as descrições enormes. Há poucos diálogos e mesmo o texto sendo curto, tendo apenas 162 páginas, é dividido em cinco partes. No entanto, mesmo com esses problemas do ponto de vista estético, a história é interessantíssima. A forma como o desenrolar ocorre e a conexão entre os elementos do enredo se dá de forma inteligentemente pensada e bem amarrada. A escrita contém elementos de humor e ironia, além de traços polêmicos que são bastante contemporâneos. Achei de bom tom o equilíbrio dado pelo autor nesses elementos.

O livro traz fatos reais em seu enredo. Mateo Colombo de fato existiu e seu livro sofreu proibição pela igreja da época pelos mesmos motivos já apresentados na resenha. Ele também fez as descobertas relativas à circulação e ao clitóris feminino, porém não se sabe o que é ficcional na relação deste com Mona Sofia e se ela de fato existiu.

Gostei muito da leitura do livro. Há alguns anos eu queria lê-lo e, com essa nova edição, pude finalmente conhecer essa obra. Provavelmente lerei outros textos do autor. Tirando os pormenores citados, recomendo a todos que gostem de romances recheados de drama

                                                                     

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Um comentário:

  1. Marcos, fiquei interessada pelo livro...apesar dos detalhes que vc destacou.

    Beijinhos e ótimo abril para vc.

    P.S: aproveito para convidá-la a conhecer o meu canal: https://www.youtube.com/user/mcjachnkee

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