sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

[RESENHA] Demian de Hermann Hesse



Editora: Record
Páginas: 196
Publicação: 2015

Emil Sinclair é um garoto muito introspectivo e que tem uma visão própria de mundo. Para ele, o mundo se divide em dois: o claro e paternal, com a segurança de seus pais e de sua casa, e o sombrio e frio, o lado de fora, com estranhos. É nesse segundo mundo que ele acaba por se meter em uma situação que lhe atormentará por um longo tempo de vida. Para tentar impressionar Franz Kromer, um garoto mais velho, que bota medo nos menores, ele inventa a mentira que roubou frutas da fazenda vizinha a sua. Kromer então diz que contará ao dono da propriedade e, para manter a sua boca calada, começa a extorquir Emil em troca de dinheiro e de outros objetos. Este, por sua vez, ao se ver inseguro e sem saber como se livrar da enorme culpa que o assolou desde então, começa a fazer o jogo do garoto, sem saber como sair dessa. 

Enquanto isso, durante a união de duas turmas em uma mesma sala no colégio, Emil começa a perceber a presença de um jovem tido como estranho por muitos e motivo de muitas lendas entre o corredores do lugar.  Max Siclair logo se aproxima e, com sua capacidade de persuasão e de envolvimento elevados, acaba por fazer de Sinclair seu amigo. É a partir dessa amizade que Max guiará Emil em busca de respostas a seus questionamentos, o levando a caminhos do certo e do errado, da reflexão e da culpa, da libertação e das incertezas, pautando assim o início de sua vida adolescente.

Demian exerce uma forte influência no amigo, que por muitas vezes chega a sonhar com ele. É nesses sonhos que uma parte da narrativa se revela e, através dele, teremos entendimentos da mente do protagonista para as pessoas que o cercam e para as situações que vive. Ele também é responsável por trazer ensinamentos de cunho cristão a Sinclair, como o que são os Filhos de Caim, pessoas que tem aptidão tanto para o bem quanto para o mal, e o deus Abraxas, entidade que tem o mesmo conceito.

Demian é um romance de formação, ou seja, nele acompanharemos um mesmo personagem desde a sua infância até a vida adulta. Foi meu primeiro contato com o autor. Sempre tive grande curiosidade em ler O Lobo da Estepe, também de Hesse, mas, como gosto sempre de ler outros livros que não as obras-primas de um escritor antes de ler estas, resolvi começar por este título e confesso que foi a escolha certa.

Hesse tem uma narrativa envolvente e enebriante. Ele me fisgou já no último parágrafo do prólogo, onde diz:

"A vida d todo ser humano é  um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. (...) Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo  pode cada um e interpretar."

Reflexões como essa permeiam todo o texto. A narrativa passa por fases de questionamento do eu, da existência humana, reflexões a respeito do certo e do errado e dos sentimentos para cada situação. Confesso que, antes de começar o livro, tinha um certo receio de ler esse autor, conhecido por ser rebuscado e complexo e de difícil interpretação. Surpresa minha ao me ver tão compenetrado na leitura que só consegui me desligar por completo do universo do livro, muito depois de terminá-lo. 

Demian é um personagem fascinante. Suas falas são muito envolventes e ele consegue fazer com que o leitor se sinta mergulhado e próximo a si mesmo. É facilmente entendível o porque de Emil se ver tão conectado e ao mesmo tempo encantado com ele. Se lê-lo já nos traz esse fascínio, imagine conviver com ele?

Não tenho formação acadêmica ou crítica para analisar plenamente esse livro, mas, com meu pouco conhecimento nesses assuntos, senti muito da psicologia de Freud durante a construção da história. Tanto no que tange ao uso da interpretação de sonhos para a construção do protagonista, tanto quanto nos rastros de sua infância que perpassam para a vida adulta, lhe influenciando tanto positiva quanto negativamente.

 Leitura recomendada para todos. Minha maior dica é a de que não tenha medo de ler qualquer livro por ser de um autor clássico ou complexo demais. Simplesmente abra e leia e vá respeitando a si mesmo, ao seu ritmo de leitura e de compreensão do texto. Caso sinta dificuldade, pare, leia novamente ou retome o livro em outro momento. Mas não deixe que o medo de um livro o faça perder uma experiência de leitura tão agradável quanto a de Demian.
                                                                     

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Um comentário:

  1. Esse livro parece trazer várias lições, gostei muito de como falou do Max, parece ser um personagem bem inteligente, e que faz o leitor parar para pensar no que está lendo.
    Esse quote realmente chama a atenção, e dá ainda mais vontade de ler. Confesso que nunca tinha ouvido falar do autor, mas sua resenha me deixou com aquele gostinho de quero mais.
    Gostei também de ter falado para ler em outro momento, já aconteceu isso comigo com um livro, li quando tinha 12 anos e abandonei, e em 2012 li novamente e se tornou um dos meus favoritos. Beijos ♥
    Lost Words

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