segunda-feira, 17 de julho de 2017

[RESENHA] O Círculo, de Dave Eggers


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 522
Publicação: 2014

O Círculo, escrito pelo americano Dave Eggers, é um romance crítico que fala sobre a relação das pessoas com o mundo cada vez mais presente das redes sociais. Nele, acompanhamos a trajetória de Mae Holland, que está ingressando nessa conceituada e poderosa empresa de tecnologia chamada Círculo.

O texto não é estruturado com capítulos, mas com seções ocasionais - aquelas interrupções que normalmente vemos dentro de capítulos. A narrativa é em terceira pessoa e foca no ponto de vista de Mae. Há uma certa distância do narrado, que não sofre influência ou influencia os pensamentos e atitudes do personagens.

Em vários momentos, O Círculo pode ecoar 1984 (Companhia das Letras, George Orwell, 416 páginas, 2009). Neste, as teletelas funcionam tanto para transmitir quanto para observar o comportamento dos cidadãos. No livro de Dave, embora a invasão de privacidade a princípio seja limitada aos funcionários da empresa, é através do imediatismo do comportamento online que as pessoas são avaliadas - e rankeadas. Há outras características semelhantes que vocês podem reconhecer ao lerem as duas obras, incluindo certas escolhas dos personagens influenciados pela necessidade do ambiente em que vivem.

O livro traz um forte questionamento sobre a relação das pessoas com o mundo virtual e em como isso pode influenciar no mundo real.

Eu não costumo falar sobre isso. Mas durante a leitura, não pude deixar de lembrar de um lugar em que trabalhei. Nesse lugar, os donos queriam forçar que nós, funcionários, fizéssemos das nossas redes sociais vitrines para a empresa. Queriam, também, controlar o que cada um fazia em sua rede social, como por exemplo não podíamos citar outras empresas que vendiam produtos semelhantes aos comercializados lá. Eles alegavam, entre outras coisas, ética. É claro que nenhum dos funcionários, pelo menos não enquanto trabalhava lá, foi anti ético a ponto de compartilhar algo desabonador sobre a empresa. O resultado dessa "intromissão" só trouxe resultados desastrosos para a empresa.

O Círculo, como empresa no livro, influencia o funcionário a postar sobre tudo o que ele faz, se inscrever em fóruns diversos, externar opiniões e gostos, publicar fotos, compartilhar... enfim! Fazer de tudo para que sua presença seja notada dentro dessa nova rede social que abrange tudo o que conhecemos. Em alguns momentos, me questionei se O Círculo é um bom livro para esta época, ou se teria uma crítica mais efetiva daqui a alguns anos. Não é especificado em que tempo no futuro essa história se desenvolve, embora "num futuro próximo" não seja uma resposta errada. Acredito que algumas ideias exploradas por Dave não estejam tão longe de serem concretizadas, como a transparência em relação aos políticos ou o uso de empresas privadas como células governamentais.

O livro vai agradar bastante quem procura uma leitura questionadora sobre um assunto atual, trazendo na memória os mesmos moldes vistos no livro de Orwell. Na verdade, seria um livro bom para ser lido por qualquer pessoa. Assim como a maioria dos lares possui uma televisão - que até onde se saiba só é um transmissor -, há uma gama absurda e crescente de pessoas com celulares conectados à rede, inclusive nas mãos de crianças.

Dave Eggers é autor de, dentre outros, Os monstros, adaptado do livro ilustrado de Maurice Sendak e baseado no roteiro para o cinema de Onde vivem os monstros, que o autor assina junto com Spike Jonze. Em junho de 2017, O Círculo ganhou uma adaptação para os cinemas com Emma Watson (Harry Potter, As vantagens de ser invisível, A Bela e a Fera) e Tom Hanks (O Código Da Vinci, Forrest Gump) no elenco principal.

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